O Atlético era um clube recente, datavam apenas cinco anos da sua fundação, quando Ben David chegou a Alcântara, proveniente da CUF do Barreiro, e varreu o futebol português como se de um furacão se tratasse.

Um avançado-centro que os ingleses consideraram o melhor que tinham visto jogar, e que foi um dos alicerces do Atlético que chegou à final da Taça de Portugal de 1949.

Henrique de Sena Ben David nasceu no Mindelo, Cabo-Verde, a 5 de Dezembro de 1926, e como era normal naqueles tempos, aprendeu a jogar de pé descalço, nas ruas de terra batida da sua cidade, com uma bola de trapos. Alto e esguio, de técnica apurada e um senhor dentro de campo, depressa os clubes da sua cidade se interessaram pelos seus serviços, e acabou por integrar a equipa de infantis do Clube Sportivo Mindelo, onde jogou até aos 18 anos, quando o seu talento já era demasiado grande para a pequena ilha de São Vicente.

Em 1946 deu-se o salto para a Metrópole, através do seu tio, Alector Sena, que jogava no Boavista, Lisboa seria o seu destino, mas não era a Tapadinha que o esperava. Sporting e Benfica já tinham debaixo de olho a jovem pérola africana, mas Ben David revelaria ser um rapaz modesto, com pouca vontade de ser o centro das atenções, e acabou por escolher o Unidos de Lisboa. E a razão era bem simples: queria um emprego que lhe pudesse garantir uma vida sem apertos, que isto do futebol era sol de pouca dura.

O destino prega-lhe uma partida, a primeira de muitas, e a empresa que suportava o Unidos deixou de o fazer, ficando Ben David sem o emprego prometido, levando o jovem avançado a ter que procurar outras paragens. Do Barreiro apareceu a CUF, que lhe acenou com um lugar na sua equipa de futebol e, mais importante que isso para o jovem Ben David, um emprego como mecânico na sua fábrica de automóveis.

No Barreiro alinhou duas temporadas na 2ª Divisão (1945/46 e 1946/47), na companhia de dois homens que, anos mais tarde, seriam dos melhores a nível nacional. Ben David jogava na frente de ataque da CUF com Manuel Vasques e José Travassos, que anos mais tarde fariam parte dos cinco violinos, juntamente com Fernando Peyroteo, Jesus Correia e Albano. Cinco violinos que poderiam ter sido seis, caso Ben David tivesse aceite a proposta feita em 1951, quando, a convite do Sporting, participou numa digressão dos leões a terras de Vera Cruz, e encantou os espectadores brasileiros durante uma partida no mítico Maracanã.

Nessa altura o seu coração já estava pintado a amarelo, vermelho e azul. O Atlético Clube de Portugal tinha-se tornado o clube de Ben David. Em 1947, e após duas temporadas na CUF, os grandes de Lisboa voltavam a assediá-lo. E Ben David voltava a preferir fugir dos holofotes da fama. Escolheria o Atlético em detrimento de Sporting, Benfica e Belenenses, preferindo atravessar o rio Tejo e assentar no bairro de Alcântara, de origem fabril, que empurrava o seu clube contra os mais poderosos do futebol lusitano.

O Atlético ofereceu-lhe 500 contos, e com Ben David na sua equipa de Honra, o clube conheceu algumas das mais belas páginas da sua história. No entanto demoraria algum tempo até se tornar numa referência, tendo apenas realizado sete jogo na sua primeira temporada, estreando-se a 5 de Outubro de 1947, contra o Belenenses.

Apesar do potencial e de toda a qualidade que lhe eram reconhecidos, Ben David só explodiu verdadeiramente na temporada de 1949/50, ano em que ajudou o Atlético a alcançar o terceiro lugar no campeonato, atrás de Sporting e do vencedor Benfica, e à frente de FC Porto e Belenenses.

Na temporada anterior já tinha dado um ar da sua graça, ajudando o Atlético a chegar à final da Taça de Portugal, que acabou por ser vencida pelo Benfica, num jogo em que a turma alcantarense vendeu muito cara a derrota.

As exibições daquele que já era considerado por muitos como o melhor avançado-centro a actuar em território nacional fizeram com que a chamada à Selecção Nacional fosse algo natural de acontecer. E em 1950 veio a sua primeira chamada, para jogo com a poderosa Inglaterra, de má memória para os portugueses, que anos antes tinha derrotado o conjunto luso por copiosos 10-0!
O palco do jogo era o mesmo da amarga derrota, o Estádio Nacional, cujas bancadas encheram com gente na expectativa e receio da Inglaterra que tinha em Stanley Matthews a sua maior estrela. A resposta veio dos pés de Ben David, que com uma exibição fantástica encurtou a diferença entre os dois conjuntos. Apesar da derrota por 3-5, a exibição dos portugueses mereceu rasgados elogios por parte da imprensa, e Ben David, autor de dois golos, deixou os ingleses embasbacados, tendo os jornalistas britânicos considerado o avançado alcantarense como o melhor que tinham visto jogar até então.

Naquela que foi a primeira de seis internacionalizações, numero escasso explicado pelos poucos jogos internacionais realizados naquela década pela Selecção portuguesa, Ben David tornou-se o primeiro nativo de Cabo-Verde a vestir a camisola das quinas.

No Campeonato Nacional a aura de Ben David continuava a liderar o Atlético em posições cimeiras da tabela. Em 1950/51 o Atlético alcançou o quarto lugar, tendo feito o gosto ao pé em 26 ocasiões, ficando apenas atrás do seu ex-companheiro na CUF, Manuel Vasques, que facturou 29.

Por esta altura o talento de Ben David já era conhecido além-fronteiras, e de França surgiu um convite do Stade Français, clube parisiense que propôs a Ben David um ordenado de seis contos, mais um conto e oitocentos por cada vitória fora e um conto por cada vitória caseira. Além das regalias financeiras, o clube francês oferecia um estágio de especialização mecânica numa fábrica à sua escolha entre as gigantes Peugeot, Citroen e Renault.
Perante tais condições Ben David não podia recusar tamanha proposta, mas o Atlético podia, e tal aconteceu quando o clube alcantarense pediu 300 contos para deixar sair o seu melhor jogador. O Stade Français, perante tal valor, desinteressou-se de Ben David e abortou a transferência.

Pela generalidade da crítica futebolística daquele tempo, Ben David reunia todas as condições para ser o melhor avançado-centro do país. Muitos diziam que o sucessor de Fernando Peyroteo estava encontrado, faltando-lhe apenas dar o salto para um dos grandes do futebol luso. Mas Ben David, fiel às suas raízes, preferiu continuar no Atlético, e na temporada de 1951/52 voltou a demonstrar pontaria afinada, facturando 24 golos, só atrás de José Águas, do Benfica.

Em 1952/53 chega à Tapadinha o treinador húngaro Josef Szabo, e o que até então tinha sido glória para Ben David, passou a ser um calvário. Uma grave lesão no menisco fez com que a sua carreira entrasse num abismo precoce. E até 1955, a magia que tinha trazido de Cabo-Verde apagou-se. Ainda não tinha 30 anos quando pendurou as chuteiras. Em oito temporadas ao serviço do Atlético facturou 98 golos em 119 jogos. E, muito mais do que isso, tornou-se uma lenda para o Atlético Clube de Portugal.

No dia 14 de Fevereiro de 1956 o Atlético organizou uma festa de despedida. Os alcantarenses tinham assim oportunidade de se despedirem de um dos seus ídolos, o maior da década de 50 e que apenas teria paralelo em Germano, uns anos depois. No Estádio da Tapadinha jogaram Atlético e Oriental, ganhando a equipa da casa por 4-2. A 15 minutos do fim, Ben David entra em campo debaixo de uma chuva de aplausos. Seguiu-se uma exibição de ginástica oferecida pelo Ginásio Clube Português e, mais tarde, um jogo de futebol entre duas selecções. Uma formada por ultramarinos e outra por sul-americanos, todos a jogar em Portugal. Ganharam os ultramarinos por 4-2. Participaram jogadores como Imbelloni, Garófalo, Mário Wilson, Juca e Matateu, entre outros. A festa rendeu cerca de 40 contos, a Ben David foram entregues pouco mais de 60.

Em 1955, pela mão do Comendador Furtado Leite, viaja para os Açores e começa a sua carreira de treinador ao serviço do Santa Clara. Naquele arquipélago orienta ainda União Sportiva, Marítimo da Graciosa e União Micaelense. Mais tarde, e depois de deixar o futebol, trabalhou na RTP Açores, sendo o responsável pelo programa Teledesporto.

Haveria de ser nos Açores, em Ponta Delgada, que iria falecer. Precisamente no dia em que completava 52 anos, 5 de Dezembro de 1978.

Durante alguns anos, e já com o Santa Clara na 3ª Divisão Nacional, sempre que o Atlético ia jogar ao Açores uma comitiva deslocava-se ao cemitério de São Joaquim, para depositar uma coroa de flores na campa do melhor avançado-centro que o Atlético conheceu.