Tal como contámos no capítulo anterior, o União, ainda jovem, viu-se a mãos com o problema da falta de campo para jogar.

Em 1926 a Direcção do União, que era composta por Eng.º Perestrelo, Aguiar, Paulo Ferreira, José Marques Cardoso, Guido Gomes Rosa e Alberto Marques, decide nomear uma comissão, encabeçada por Aníbal Mariz Fernandes e Paulo Ferreira, com o intuito de obter a cedência de um terreno em Santo Amaro junto do Marquês de Vale Flor.

A comissão do União foi recebida pelo ilustre Marquês no seu Palácio (hoje considerado Monumento Nacional, e onde se localiza, desde 2001, o Hotel Pestana Palace, junto ao Jardim de Santo Amaro).

Tais negociações são coroadas de êxito e a massa associativa do União exulta. Forma-se logo outra comissão, esta para as obras, a fim de levar, a efeito as necessárias terraplanagens e outros arranjos.

Anos decorridos, todas as esperanças quase desapareceram. O Marquês de Vale Flor pediu a devolução do terreno. Soava novo alarme e surgiam novos embaraços.

Contemos o caso, por ter a sua graça. O terreno onde o União disputava os seus desafios, pertencia, como já dissemos, ao Marquês de Vale Flor, fidalgo pelos sentimentos e pela nobreza.

Devido ao crescente entusiasmo dos sócios unionistas, resultado da evolução progressiva da popular colectividade, a «claque» fazia muito barulho, os aplausos e incitamentos eram ruidosos.

O Marquês, que morava em prédio fronteiro ao campo de futebol, amante do sossego acabou por «afinar» com aquela gritaria, chamou os directores do União e deu-lhes ordem de despejo.

Foi rum golpe profundo nas aspirações do já popular União Foot-Ball Lisboa. Entretanto, vencido o desânimo Inicial, a Direcção do União toma uma atitude e resolveu encarar de frente o problema.

Sem campo e sem recursos, assim de repente, a Direcção do União reuniu e deliberou nomear uma comissão, a fim de se reunir com o Marquês de Vale Flor, a quem exporia a ingrata situação do clube.

Formada a comissão, composta pelo então presidente da direcção, Eng.º Aníbal Mariz Fernandes, José Maria Amaral e João de Almeida Governo, esta foi recebida pelo Marquês.

Exposta a situação, a comissão informou que existia um terreno onde se poderia construir o campo do União, mas que o clube, por não ter possibilidades financeiras, só lhe restava pedir ajuda.

O Marquês de Vale Flor, indo de encontro às aspirações de todos os santamarenses reflectiu e questionou:
– Quanto custa o terreno?
– Quarenta e quatro contos – respondeu a comissão.
– Só! — Exclamou o Marquês.

Obtida tão substancial ajuda financeira do Marquês, juntaram-se depois as comparticipações de José Cardoso e Paulo Ferreira. E começaram imediatamente as obras.

O campo de Santo Amaro, ficava nos terrenos onde actualmente se encontra instalada a escola Francisco Arruda. Foi inaugurado em 5 de Janeiro de 1930.

No festival de inauguração, realizaram-se os encontros de futebol Vitória de Setúbal-Benfica e União-Lusitano de Évora.

O terreno media 103 metros de comprimento por 63 de largura, não podendo o projecto de obras ser cumprido integralmente, visto atingir uma verba a rondar os 700 contos. Em 1930, era uma quantia avultada.

Compunham então o quadro directivo, Álvaro de Azevedo, Frederico Cândido Porto, Álvaro Tiago da Conceição, José Amaral de Almeida, José Baptista Ribeiro, Manuel Rodrigues Mina e Eng.º Aníbal Mariz Fernandes, que tanto trabalharam em favor da colectividade unionista.

E assim se ergueu o campo de Santo Amaro que, pela fusão, passou a ser propriedade do Atlético, sendo em 1950 expropriado pela Câmara Municipal de Lisboa. Nele ainda jogou o Casa Pia, por cedência da Câmara, a título precário.

O Campo já não existe há muitos anos, mas a gravura que ilustra este artigo dá a possibilidade de ter uma ideia do campo. Trata-se de um desafio renhidamente disputado entre o União e o Casa Pia, com os jogadores em pleno movimento e o público em número reduzido mas muito atento. Curioso o pormenor pitoresco que se divisa ao longe, na lomba dos terrenos vizinhos: o agente da GNR, sobre a sua montada (como ainda hoje se vê), vigilante e alerta para cortar a passagem dos borlistas.