O Carcavelinhos nasce do confronto de ideias numa outra colectividade. Personalidades fortes, com ideias diferentes, não raras vezes, entram em conflito. E foi um conflito de ideias que gerou a dissidência de uma dessas personalidades, originando a fundação de um novo clube, que viria a tornar-se o maior da freguesia, uns anos mais tarde.

Essa personalidade forte era Rufino José de Araújo, figura prestigiosa e respeitada no ainda primitivo futebol lisboeta.

Rufino, que pertencia ao Imperial, defendia que a educação física e o desporto, dentro das suas boas regras, deviam ser iniciados na adolescência. No Imperial, no final de 1911, outros afirmavam o oposto, que o futebol e a prática desportiva só deveriam ser praticados por adultos. E, numa assembleia geral exclusivamente convocada para deliberar sobre esta questão, Rufino e os seus partidários foram derrotados.

Rufino José de Araújo, fundador do Carcavelinhos.

Descontente com a decisão, Rufino abandona o Imperial e surge na sua cabeça a ideia de fundar um novo clube em Alcântara. Ganha o apoio de várias pessoas, como Armando Antunes, Mário Procópio, Alexandre Nunes, Armando de Oliveira, Francisco Caldas, Armindo de Oliveira, Henrique Silva, Carlos Gaspar, José Vieira, José Cardoso, Artur Rodrigues, Henrique Abrantes, José, Lopes, Carlos Canuto (tinha então 14 anos), Aleixo Nunes, Domingos Santareno, Pedro Rodrigues, Carlos Rodrigues, Serafim Coelho, Bernardo Castanheira, entre outros.

Estes seriam, nada mais que os fundadores do Carcavelinhos.

O primeiro director do Carcavelinhos (que ainda não tinha nome) foi Rufino, enquanto a tesouraria era desempenhada pela sua mãe, que guardava o dinheiro das poucas quotas cobradas por Alexandre Nunes.

O grupo já existia, mas faltava o nome. Como se deveria chamar o novo clube alcantarense?

O futebol, apesar do entusiasmo que existia à volta do jogo, era ainda muito deficientemente praticado pelos portugueses, o que fazia com que os britânicos do Carcavelos saíssem quase sempre vencedores dos desafios em que participavam.

Carlos Canuto, aos vinte anos de idade, com a camisola do Clube da sua vida – O Carcavelinhos.

Os britânicos do Carcavelos Sport Club, o grupo dos mestres, dos triunfadores. Pois bem, o pequeno clube alcantarense queria seguir o exemplo dos mestres, e devia iniciar-se como um Carcavelos em ponto pequeno. O nome, por sugestão do gaiato Carlos Canuto, estava encontrado: Carcavelinhos.

Assim, aceite o nome por unanimidade, em 14 de Fevereiro de 1912, constituía-se em Alcântara, o Carcavelinhos Football Club. O emblema ainda não era aquele que se popularizou (com coroa acastelada e a cruz de malta no interior do escudo), e sim um escudo com uma águia no centro, atravessada por duas listas (ver foto de Carlos Canuto). A mudança de emblema surge pouco mais de uma década após a sua fundação, e numa altura em que o Carcavelinhos é relegado, injustamente!, para a 2.ª Divisão de Lisboa.

Sem campo próprio, os atletas do Carcavelinhos aproveitavam para os treinos dois terrenos. Um deles designava-se de terra preta, situado entre a linha de caminho-de-ferro e o local onde hoje se ergue a gare marítima de Alcântara, e junto de uma fábrica de gelo, já desaparecida. O nome provinha do facto de se proceder à carga e descarga de carvão ali bem perto, de forma a que os ventos predominantes para ali arrastavam nuvens de pó daquele mineral, escurecendo a terra que formava o campo.

O outro, o campo da feira de Alcântara, só nos períodos em que esta não funcionava é que podia ser utilizado. E foi palco de grandes encontros, e aproveitado, em primeiro lugar, pelo CIF, até à sua mudança para o parque das Laranjeiras, em Sete Rios. O Benfica também por lá passou, assim como o Luz Soriano, formado por alunos e ex-alunos da Casa Pia de Lisboa. Aí se fizeram, igualmente, quase todas as partidas da Liga Alcantarense, pois, ao tempo, a feira de Alcântara, que durou de 1898 a 1912, já acabara.

Os equipamentos usados pelo Carcavelinhos, tal como consta do Livro do Centenário da Associação de Futebol de Lisboa. À esquerda temos o primeiro equipamento, com o primeiro emblema, apelidado de «Drogaria». À direita, o equipamento que todos reconhecemos, já com o emblema final.

A primeira sede do Carcavelinhos foi na casa de Rufino José de Araújo, na Rua Feliciano de Sousa, antiga Rua de São Jerónimo. E, logo após a fundação, novos ilustres se associaram, tais como Alfredo Prazeres, Armindo de Azevedo, Artur Nunes, Joaquim Esteves; Manuel Marques, Filipe Domingues, Marcelino Pereira, Jacinto Domingues Júnior, Júlio Pais, Roberto António, Narciso de Oliveira, João de Freitas, Joaquim dos Santos, Joaquim de Assunção, Albino Rodrigues, Raúl Cardoso, Manuel Vieira e muitos outros.

Organizaram-se logo três equipas de futebol — os quintos grupos, que era como se designavam estas primeiras categorias, e a turma infantil.

O primeiro desafio que o quinto grupo efectuou foi com o Grupo de Football Esperança, que logo convidou o Carcavelinhos, numa carta concebida nos seguintes termos.

«Lisboa. 25 de Fevereiro de 1912.

Ao Digno Capitão do Carcavelinhos Football Club, Lisboa.

Amigo e Senhor, tendo em vista a vontade desde há muito expressa pelos jogadores que compõem a minha primeira categoria, de se defrontarem com a igual categoria de que V. Ex.ª é mui digno capitão, vinha por este meio pedir amigavelmente um desafio no campo da Junqueira, para o próximo domingo, a hora que depois devemos combinar. As balizas levamos nós. Saúde e Sport.

O capitão do Grupo Football Esperança.
a) Carlos Santos».

O desafio realizou-se e o Carcavelinhos, no seu primeiro jogo, bateu copiosamente o adversário. A aspiração de vencer começou desde logo a concretizar-se e o Carcavelinhos afirmava-se à altura do famoso grupo de Carcavelos, clube em que se inspirara para a formação do seu nome.

As primitivas cores das camisolas do Carcavelinhos, eram vermelho escuro (ou grená) e verde, com uma risca amarela ao meio. Este equipamento, um tanto bizarro, ficou conhecido por «drogaria» e era de tecido barato, ao contrário do dos ingleses, que envergavam camisolas de boa linhagem.

No próximo capítulo iremos abordar os primeiros jogadores e as primeiras provas em que o Carcavelinhos competiu.