O desafio seguinte, último do campeonato, decisivo para atribuição do título e que garantia o acesso à 1.ª Divisão, opunha o Carcavelinhos ao Vitória de Setúbal, este a um escasso ponto do «leader».

Os alcantarenses necessitavam apenas do empate para se sagrarem campeões, mas não foram felizes, não obstante a magnífica primeira parte, e perderam por 2-1. Desta forma foi o campeonato decidido a favor do Vitória.

Nem tudo ficou perdido, porém. O Carcavelinhos acabou por ser campeão lisboeta absoluto em segundas categorias, o que de certo modo compensou o malogro do jogo com os setubalenses, na 2.ª Divisão.

Para efeitos da inscrição oficial na Associação de Futebol de Lisboa, o clube alcantarense contou sempre com a cedência do campo do Sport Lisboa e Benfica.

Porém, numa noite do ano de 1925, antes do início de mais uma época, procurou-se, para obtenção do ofício declarativo da cedência do seu campo, a Direcção do Benfica. Encontravam-se reunidos Cosme Damião, Joaquim Bogalho e António Santos, entre outros. Exposto o fim, Cosme Damião respondeu que ao Benfica era impossível ceder o seu campo, dado o desenvolvimento que o clube ano-a-ano ia tomando.

Apanhados de surpresa, apresentaram-se argumentos e ficou então estabelecido que aquele seria, excepcionalmente, o último ano de cedência. E foi nessa mesma noite que nasceu o grande problema.

Da dificuldade nasceu o desejo: a construção de um campo de jogos!

Ferro Mourão, mais novo, atingido pela mesma febre de entusiasmo, lançou a ideia da fundação de um grande clube em Alcântara, associando toda a gente, toda a família alcantarense num novo baluarte, saído de uma fusão entre Carcavelinhos, Ocidental, Imperial e, possivelmente, União Lisboa. Mas a ideia morreu, a despeito da vontade de alguns vultos eminentes do Carcavelinhos, porque uma parte dos sócios do Ocidental preferiu o desaparecimento do seu grupo à fundação do grande clube. E Ferro Mourão enfileirou, depois, no número de todos aqueles que queriam fazer do Carcavelinhos o grande clube da família alcantarense.

Rodrigues Graça, um dos grandes obreiros da construção do campo da Tapadinha.

António Faustino concebeu o Campo da Tapadinha, Sousa Lino, multiplicando-se, tornou a concepção possível de realidade, e Rodrigues Graça, aproveitando o belo e generoso esforço da grande massa anónima do clube, orientando-a tecnicamente – ele só! – realizou o milagre do Campo da Tapadinha.

Se António Faustino concebeu o campo, se Sousa Lino, com o seu esforço, o tornou possível, e se Rodrigues Graça o converteu em realidade, nada do que se fez teria sido exequível se não fora a bela conjugação de esforços dos dirigentes, de jogadores e de toda a massa anónima do clube.

Foi a mais bela obra do Carcavelinhos, e nesta obra admirável seria injustiça salientar a acção deste ou daquele, pois foi produzida verdadeiramente, pela própria colectividade.

No próximo capítulo traremos mais pormenores da construção da Tapadinha, pois é chegado o momento de falarmos desse grande alcantarense que se chamou António Faustino.

Desde garoto, ostentando com galhardia o distintivo do seu Carcavelinhos, batendo-se por ele com o maior bairrismo, cedo a morte o levou.

Militava ainda o Carcavelinhos na 2.ª Divisão, à procura da divisão cimeira, de onde havia sido desalojado apenas por ser um clube novo na idade, e já a voz e a pena brilhante de António Faustino estava a seu lado.

Porque não foi ele empregar o fulgor da sua inteligência, os seus excepcionais dotes de trabalho, naqueles clubes de carreira já firmada, naqueles meios em que, com certeza, o valor da sua acção poderia trazer-lhe maior interesse? É que António Faustino era um idealista. Veio para o Carcavelinhos impulsionado pela chama alcantarense, pelo espírito que o norteou na vida, na protecção e defesa dos mais fracos e injustamente atacados. O Carcavelinhos era ainda a arraia-miúda, o povoléu, de Alcântara, aquele fato de ganga, símbolo do trabalho honrado, que ele procurava elevar e dignificar. Era lá o seu lugar.

Recorda-se, neste capítulo de saudade, a sua alegria e orgulho, quando a equipa alcantarense, transposto o último obstáculo, entrou, depois de luta entusiástica, na 1.ª Divisão. Era necessário um campo.

Numa tarde agreste, fugindo às vergastadas do vento, que lhe trespassava o corpo frágil, já minado pela doença, no alto da Tapada, onde iria ser edificado o campo, ele, sugestionado pela obra admirável que antegozava, apontava com íntima satisfação: «Ali devem ficar as bancadas, acolá o peão».

A Tapadinha ergueu-se, mas a morte, que traiçoeiramente o espreitava, não consentiu que António Faustino visse com seus próprios olhos o sonho tornado real. Com a morte de António Faustino ficou a família do Carcavelinhos mergulhada em dor profunda. Ficava, porém, pairando em volta dos que com ele colaboraram, o seu espírito rutilante, para lhes incutir a fé, que a ele nunca faltou.