rafael-gomes_001Quando entramos no seu gabinete o nervosismo é natural. Afinal sabemos quem é o Rafael Gomes. Foi jogador do Atlético durante três temporadas, um médio-ala com alguma técnica, mas que se destacava pela sua vontade. Mais tarde foi adjunto de Carlos Dinis, e está actualmente ligado ao departamento de scouting do Benfica.
Mas o mister Rafael Gomes desarma-nos com o seu sorriso e simpatia. Contrastando com o ar carregado que apresenta durante o treino.

«Então vamos lá!» – diz-nos.
«Mister, qual foi a motivação para regressar ao Atlético?»

Rafael Gomes sorri, encosta-se na sua cadeira e conta-nos as razões que o levaram a aceitar o convite de José Flores, Presidente-Adjunto do Clube, que em 1981 o foi buscar para jogar no Atlético.

«Foi, fundamentalmente, o convite que me foi feito. A este nível só haveriam dois clubes que fariam voltar aos bancos. Um deles era o Atlético.»
«Por tudo o que este Clube representa para mim. Fui atleta e é um Clube que sempre admirei. É um histórico da Cidade de Lisboa. Por tudo isto aceitei o convite. É um renascer do Clube. Foi com algum orgulho que aceitei o convite, e fiquei entusiasmado de poder ajudar o Atlético.»

O Atlético em 1982. Rafael Gomes é o terceiro de baixo a contar da esquerda.

O Atlético em 1982. Rafael Gomes é o terceiro de baixo a contar da esquerda.

Rafael começa então a puxar pela memória, sorrindo e afirmando o «orgulho» que teve em envergar a camisola do Atlético.

«Foi um orgulho enorme quando fui convidado, em 1981, para jogar no Atlético. Uns anos antes tive a oportunidade de treinar à experiência, quando o Atlético estava na 1ª Divisão Nacional, mas acabei por não ficar. Depois consegui jogar no Atlético e vivi três anos maravilhosos na Tapadinha. Fiz grandes amizades e criei uma grande empatia com o Clube.»

«Passado uns anos, através do Professor Carlos Dinis, fui convidado para Treinador Adjunto, e cheguei a orientar a equipa em dois jogos. Costumo dizer, na brincadeira, que eu e o Professor João Silva somos os únicos treinadores imbatíveis no Atlético. Fizemos dois jogos e não perdemos nenhum.»

«E agora convidam-me novamente, para ajudar – e estou aqui para isso mesmo, quase num espírito de militância – e foi com prazer que aceitei.»

A situação actual do clube não é aquela que todos gostaríamos, mas Rafael Gomes não se intimida. Promete o que sempre o carecterizou, tanto como jogador como treinador.

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Caíca tenta passar por Rafael Gomes num Belenenses 1-1 Atlético, a 16 de Janeiro de 1982.

«A responsabilidade existe sempre que aceitamos uma proposta para trabalhar. Todos temos a noção da situação que se vive no momento, e é tentar organizar as coisas da melhor maneira possível de forma a ultrapassar as dificuldades. No caso concreto desta equipa, é construir uma equipa praticamente do nada. Com todas as dificuldades existentes de um Clube que está num campeonato amador, com limitações financeiras que, obviamente, nos limitam. Mas com alguma abertura para se conseguir criar uma equipa para os objectivos propostos.»

E quais são esses objectivos, perguntámos.

«Nunca entrei em campo para perder», Rafael Gomes, pela primeira vez nesta entrevista mostra um ar sisudo.

«Todos os Domingos honrar a camisola. Sermos o mais sérios possível e lutar pela vitória em todos os jogos. A ideia é levar o clube a um patamar que seja condizente com o seu historial», diz confiante. Mas alerta para as dificuldades que o Atlético vai encontrar.

«Dentro deste campeonato vamos encontrar alguma animosidade, porque todos vão querer ganhar ao Atlético. E isso é normal. Nesta divisão o Atlético é uma equipa de referência. Vamos ter essa dificuldade e saber assumir essa situação. Esse momento vive-se no momento, tentando aproximar o Atlético daquilo que é a sua referência histórica.»

Nos treinos, e para quem acompanha a formação, têm aparecido algumas caras conhecidas. Jovens que conhecemos desde que eram crianças. Rafael Gomes assume que «ter jovens atletas com paixão pelo clube ajuda», mas abre um parêntesis para falar sobre a formação.

«A questão da formação é um pouco complicada. Quando estamos num grande centro urbano onde existem clubes com maior capacidade que nós começa a ficar um pouco difícil pensar que podemos viver exclusivamente da formação. Nem os grandes clubes o conseguem.»

«Mas o Atlético, com as condições que tem, a sua formação ainda tem muito para dar. O Atlético se tiver escolas de futebol com quantidade, a qualidade também vai aparecer. E isso acontece fruto da organização e competência que existe nessas escolas.»

«A partir daí há a hipótese de aproveitar os atletas que são formados em casa. Podemos não suprir todas as necessidades, mas temos uma base para trabalhar.»

Os sócios do Atlético são exigentes. Há quem diga que são dos mais exigentes do país, passe o exagero. Mas o mister Rafael Gomes tem conhecimento de causa. Sabe o que é a “Mística Alcantarense”, e não receia a exigência.

«Os sócios do Atlético são apaixonados e fervorosos no apoio à sua equipa. E para os ter do nosso lado não há outra hipótese senão ganhar jogos», analisa o treinador.

«Temos que fazer o nosso trabalho, não posso estar com um ouvido no campo e outro na bancada e ser condicionado pelo que oiço dos sócios. Sou condicionado pelo que acontece dentro do campo.»

Outros tempos. Rafael Gomes é o quarto de baixo a contar da esquerda.

Outros tempos. Rafael Gomes é o quarto de baixo a contar da esquerda.

Mas o treinador admite não ser «insensível aos afectos das pessoas».

«Já vi, enquanto jogador, treinadores a ser pressionados pelos sócios do Atlético, e é algo que faz parte da história do Atlético. Aquilo não era para brincadeiras. Faz parte de Alcântara e do seu bairrismo.»

Mas Rafael Gomes é sucinto: «É algo com que me identifico.»

Terminamos com uma mensagem de Rafael Gomes para os sócios do Atlético.

«Devem vir todos os Domingos apoiar a sua equipa. Se puderem venham aos treinos. Tenham a noção da realidade do Atlético neste momento. Isto não vai ser um passeio, bem pelo contrário. Uma vitória por 1-0 vale o mesmo que uma por 5-0: três pontos! Os nossos sócios têm parte importante nisto, com o seu entusiasmo, a sua paixão, a sua vontade de vencer. Isto não é só para nós, é para vocês, sócios, também.»

Despedimo-nos com um aperto de mão, e ansiosos pelo futuro.
«Conto com vocês para nos apoiar na bancada», diz-nos.

«Pode ter a certeza, mister. Estaremos lá!».