Natural de Santarém, Fernando Piedade tornou-se Vice-Presidente nas últimas eleições. 55 anos, empresário da construção civil, pai e avô, é um homem frontal e directo. Na entrevista que reproduzimos abaixo, desvenda um pouco do que é a sua vida no Atlético. Responsável pelo Futebol Juvenil, tem objectivos definidos, e constata que, apesar dos sucessos, ainda há muito para fazer.

Como começou a sua relação com o Atlético?
Começou em Dezembro de 2011. Tenho um filho que joga no Atlético. Estava, na altura, nas escolas do Carlos Queiroz. O Atlético abordou-o, veio cá treinar e ficou. E, como é normal, fiquei a acompanhá-lo como jogador. E ainda hoje cá me mantenho, embora já não seja só ele que me move no Atlético, mas foi assim, efectivamente, a razão de eu me ter aproximado do Atlético.

Em relativamente pouco tempo passa a integrar a estrutura do futebol juvenil. Como é que essa entrada na estrutura do clube se processou?
Eu, através da empresa de que sou gerente, tenho dado vários apoios em várias equipas de futebol. Ao chegar ao Atlético, infelizmente, a situação financeira do clube não era a melhor – e isto é público. Haviam várias dificuldades, penso que a forte razão era o futebol profissional. O Atlético tinha pouco dinheiro e o pouco dinheiro que obtinha canalizava para o futebol profissional.

Em relação ao futebol juvenil, onde fui ficando mais próximo, fui tendo a sensibilidade de que havia ali muita falta de apoios por incapacidade, na altura, do clube. Quando reparei que teria aqui uma oportunidade de apoiar o Atlético, e isso faz parte de mim como cidadão já que também passei por algumas dificuldades na minha vida, revi-me nas dificuldades do Atlético e senti que tinha a obrigação moral de ajudar.
Fui dando os apoios que senti serem necessários, principalmente no futebol juvenil. Isto levou-me, mais tarde, a filiar-me como sócio. Fui ajudando naquilo que pude, e a Direcção, neste caso na pessoa do Presidente Sr. José de Almeida Antunes, reparou na minha presença constante, na minha vontade de apoiar e avaliou a minha situação. Na realidade era um estranho que estava a entrar aqui e o que é que eu podia querer em troca… É um homem que tem toda a capacidade, pela experiência de vida e do futebol, de avaliar e terá sentido que não havia interesses por trás, que o que me levava a apoiar era a minha vontade de ajudar.

A determinada altura fez-me uma sondagem, se eu me importaria de fazer parte dos corpos sociais do clube. Aceitei e faço parte da direcção, como Vice-Presidente, desde as últimas eleições (à cerca de um ano, sensivelmente). Estou muito grato ao Atlético por me ter aceite. Tenho feito tudo o que é possível, e tudo aquilo que consigo tenho feito e estou disponível para o fazer durante este mandato. Estou de consciência tranquila, tenho feito o meu melhor, vou rectificando a cada dia que passa – porque sou humano e cometo erros – vou ouvindo as opinião das pessoas, uma favoráveis, outras não. As opiniões favoráveis enaltecem-me, as que não são favoráveis tornam-me mais responsável para as alinhar e rectificar.

Posso prometer aos sócios, aos adeptos, aos alcantarenses, que nunca esperei, em momento algum, desiludi-los por falta de empenho, por falta de honestidade, por falta de seriedade. Não é o facto de ser sócio à poucos anos que me irá limitar em qualquer perspectiva de fazer o melhor que eu possa pelo Atlético Clube de Portugal.

Após a sua entrada no futebol juvenil houve uma melhoria dos resultados. A vitória na 2ª Divisão de Juniores (2012/13), a subida dos Juvenis ao Nacional (algo que já não acontecia há mais de uma década), foi uma consequência natural ou era algo que estava na iminência de acontecer?
Eu entro no Atlético numa altura em que o futebol juvenil estava a passar por um momento muito complicado. Por um lado acabava por ser aparentemente fácil fazer qualquer coisa de positivo, porque as coisas estavam mal.

No entanto isso aguçou a minha vontade de me poder empenhar e criar perspectivas melhores. Eu não era um ‘expert’ no futebol, tenho aprendido muito no Atlético. Não tenho dúvidas nenhumas, e já não tinha na altura, que há muita coisa da nossa experiência de vida que se adapta ao futebol. E senti, por aí, que era um Treinador de Nível IV por experiência de vida. Peço desculpa se parece que não estou a ser humilde, mas sei dos problemas que tive que enfrentar na minha vida e a forma honesta e correcta como os ultrapassei. Portanto achei que com esta minha experiência de vida haveria muita coisa que eu poderia aplicar no futebol juvenil. Com isto em mente fui atrás daquilo que considerava fundamental. Criar sensibilidade na Direcção para as dificuldades que existiam. Fui procurando uma equipa de trabalho, e era importante que, primeiro que tudo, acreditassem em mim. Neste processo tive que lidar com decepções, mas também criei ligações que ainda hoje as mantenho. Depois de ter a confiança das pessoas que me rodeavam, foi um processo muito mais fácil. Fomos à procura dos melhores jogadores disponíveis, do melhor treino possível, e os resultados foram aparecendo. O Campeonato de Juniores, a subida dos Juvenis, e fomos melhorando o estado do próprio campo, dos balneários, os equipamentos. Aí tenho de assumir que tive uma grande responsabilidade, e isto vale o que vale para este cenário de vitórias. E pelo que fui vendo nas caras deles foi algo de bom. Este foi, efectivamente, o meu grande apoio.

No campo, quem ganhou foram eles, os jogadores. Foram eles que treinaram bem, foram eles que demonstraram sempre empenho, com sol ou chuva, com treinos a acabar às 22:30, às 23:00 ou à meia noite, com jogos perto ou longe, nada serviu de desculpa para estes jogadores. O mérito é deles, dos treinadores, dos adjuntos, e para o Atlético. Porque só por existir o Atlético, e ser o clube que é, é que é possível fazer tudo isto.

Actualmente, qual é o projecto da formação?
A projectar estou sempre. Sei para onde queremos ir, mas tenho que reconhecer que existem algumas limitações. As Direcções são de um triénio, se por um lado quando tudo está mal é fácil ir melhorando, por outro para colocar tudo no ponto certo é demorado. E estes projectos não podem ser feitos de um ano para o outro. Requer mais tempo. Estou com mais autonomia para dirigir o futebol juvenil desde que faço parte desta Direcção. Tenho mais dois anos para desenvolver o meu projecto. Daqui a dois anos ou alguém pega no projecto, ou acaba, ou eu continuo. Não há garantias de que as coisas aconteçam como queremos. Não posso fazer um projecto a longo prazo. Tenho um projecto para este ano. Tenho ambição, sei o que queremos. Queremos subir os Juniores e manter os Juvenis. A perspectiva deste ano é ganhar e, fundamentalmente, formar. É muito importante formar. Não estamos preocupados em ganhar se não conseguir formar. Quando digo formar, é ter respeito pelo árbitro, pelos colegas, pelos adversários, por toda a gente que representa esta instituição. Vou realçar esta situação, porque muita gente fica surpreendida, mas qualquer jogador do futebol juvenil que anda no Atlético que passe por alguém que ele reconheça como pessoas do clube, esse jogador cumprimenta, com bom dia, boa tarde, até amanhã. Isto para mim já é uma grande vitória. Não tenho dúvidas nenhumas que isto acontecia antigamente, mas também não tenho dúvidas de que isto acontece. Esta é uma das minhas grandes lutas, poder dar-lhes um apoio a nível de educação, a nível de formação, nunca lhes tirando, como é óbvio, o carisma, a luta, o empenho, a raça, que sempre caracterizou o Atlético.

Existe, realmente, uma ponte entre o futebol de formação e o futebol profissional?
Há um acordo parassocial entre o Atlético Clube de Portugal e o Atlético Clube de Portugal – Futebol, SAD. Nesse acordo a SAD tem a obrigação de inscrever três jogadores oriundos da formação, neste caso indicados por mim. Isso aconteceu a temporada passada e na presente época. Temos o Bernardo, o Pedro Ribeiro e o Maurício, que o ano passado fizeram parte da equipa de juniores. No ano anterior tivemos o João Lima, o Rui Cardoso, o Gui e o Fábio Oliveira, que entretanto foram dispensados, mas isso é algo que não podemos controlar. Mas existe o acordo, e enquanto esta SAD se mantiver isso será algo que terá que ser cumprido.

Na actual equipa de Juniores, há jogadores que para o ano terão essa oportunidade?
Com frontalidade, neste momento, ainda não tomei esse cuidado. Vou ter algumas dificuldades, por uma razão óbvia. Tenho um plantel de 25 jogadores, e desses 25, 18 são juniores de primeiro ano. É o plantel mais jovem de todas as equipas que estão na 2ª Divisão de juniores. Tenho apenas 7 jogadores no último ano de júnior. Fica mais difícil em 7 escolher 3, do que no ano passado em 18 ou 19 escolher 3. Ainda não sei, mas vou ter que indicar três em consciência. Perceber se eles têm condições mínimas para poderem entrar numa 2ª Liga. Terei que ser sério se não conseguir sentir que tenho jogadores para isso. Agora garanto que até ao final da época iremos tentar que estes 7 jogadores de 2º ano, três terão condições para integrar o plantel profissional.

Adeptos, sócios e simpatizantes são parte importante da vida de um clube. Tem sentido o apoio da massa adepta do Atlético na formação?
Um apoio total! Não vivemos sem os sócios, isto é feito, também, para eles. Portanto, os sócios, por todos os motivos, são uma componente fundamental. Não estaria a ser sério se afirmasse que a totalidade dos sócios acompanha o futebol de formação. Isso não é verdade. Em comparação com aquilo que gostamos, há uma minoria que nos acompanha. Eu consigo perceber isso. O “motor” do clube é o futebol sénior, entendo isso perfeitamente. Agora, penso que nunca é tarde para sensibilizar estes sócios de que estes miúdos são o futuro do Atlético. É nossa obrigação, nossa responsabilidade moral, acompanhar estes miúdos.

Vêm alguns adeptos. Aqueles que vêm, apoiam. De uma forma positiva, por vezes de uma forma negativa. Mas também isso é importante, às vezes pode ser uma forma de chamar a atenção para nos ajudar a rectificar algo que não esteja bem.

O que gostaria de deixar no ar é que o futebol juvenil precisa dos sócios, precisa dos simpatizantes. Não temos, lamentavelmente, as melhores condições para os receber, mas eu sou do tempo em que se via o futebol no peão, em pé. E ia-se à bola à mesma. Que isso não sirva de desculpa.
O apoio é uma forma de mostrar a raça e a qualidade dos alcantarenses, dos sócios do Atlético. É esta a fama que temos, “lá vêm os de Alcântara. Cuidado que são tramados”. Oiço isto em vários campos, de uma forma positiva. São aguerridos, gritam pela sua equipa, aplaudem… Vamos colocar essa chama cada vez mais viva.

Não só em meu nome pessoal, mas em nome de todos os miúdos que jogam, sempre que seja possível apoiem o futebol juvenil. Venham em força, venham em grande.