Passados mais de cem anos, contar, embora a traços ligeiros, a vida do União Foot-Ball Lisboa, é um exercício que carrega algumas dificuldades. Para começar, existe uma notória carência de elementos, e os poucos que se conseguem colher, aparecem dispersos, dificultando o estabelecimento de um fio condutor, ainda para mais para quem, como nós, não foi contemporâneo do clube e não viveu de perto os acontecimentos. Não obstante, tentaremos, com o rigor possível, ajudar a compreender melhor a vida do União Lisboa.

O clube de Santo Amaro nasceu de um grupo – aqueles grupos de que falámos no capítulo anterior – que se denominava de «Os Quinze». E eram, de facto, quinze os elementos que o compunham, e para além deles ninguém mais poderia ser admitido.

Recordemos, então, os integrantes desse grupo: António José Pires, João França, António Marques, João Pilones, Alberto Soares (também conhecido por Alberto Serralheiro), Arnaldo da Mata, António da Mata, João da Mata (três irmãos), Silvestre Ramalho, Manuel Esteves, Francisco Lopes, José Garcia, Artur Garcia, Luís Ferreira e Henrique Viegas.

O futebol era o que os animava, e o primeiro desafio realizou-se no campo da Junqueira, contra o Imperial, da Rua da Cruz. «Os Quinze» venceram, e logo procuraram novos desafios.

No entanto os quinze associados revelaram-se um número diminuto para as ambições que tinham. É então que, em casa de António José Pires, realiza-se uma Assembleia Geral em que foi deliberada a admissão de sócios sem qualquer limite. Por causa dessa Assembleia, o número de associados aumenta, muito graças aos esforços de António da Mata e António José Pires.

Desaparecia, assim, o grupo «Os Quinze» e nascia o União Foot-Ball Lisboa, em 3 de Março de 1910.

Em Agosto de 1910 o Grupo de Futebol Benfica organiza um torneio de futebol de quintas categorias. O União, nome que simbolizava a amizade de todos os associados do clube, venceu o torneio sem uma única derrota. Foi o primeiro troféu do clube, e é a mais antiga taça da sala de troféus do Atlético.

O entusiasmo ia tomando conta dos unionistas, e logo se arranjou uma sede, na Rua dos Lusíadas, n.º 141, 1.º andar. A escassos 100 metros do jardim de Santo Amaro.

Os equipamentos usados pelo União, tal como consta do Livro do Centenário da Associação de Futebol de Lisboa.

Em 1911 o União disputou novamente o torneio do Grupo de Futebol Benfica, agora com as terceiras e quintas categorias, vencendo em ambas.

É, também, constituída a primeira Direcção, formada por Manuel Varela (Presidente), António da Mata (Vice-Presidente), Joaquim Basílio (1.° Secretário), João Soares França (2.° Secretário) e Raul Ramalho (Cobrador).

Nas comemorações do 1.º aniversário foi incluído um jogo de futebol, e o convidado foi o Grupo de Futebol Benfica. No entanto, não havia água para os banhos, e os sócios do União carregaram com bilhas de barro cheias de água para que os jogadores, depois do jogo, se pudessem lavar. Outros, por certo, carregaram as balizas, que naquele tempo pertenciam aos clubes, que as guardavam na sua sede, já que o campo da Junqueira era, efectivamente, o campo de todos. Ali jogavam o Alcantarense, o Imperial, o Ocidental, e tantos outros.

A primeira categoria do União, em 1913, transformou-se na 3.ª categoria do Sport União Belenense, e classificou-se em segundo lugar no campeonato da Associação. Isto deveu-se ao facto de que o União, por não ter campo próprio, não teve a sua inscrição na Associação de Futebol de Lisboa aceite. Por isso, para não ficarem parados, os jogadores foram defender as cores de Belém.

No ano seguinte, 1914, o União ainda não disputava as provas oficiais, e os seus jogadores constituíram uma categoria do Lisboa Futebol Clube, passando depois para o Império.

Chega, então, o ano de 1917, e os unionistas conseguem, finalmente, filiar-se na Associação de Futebol de Lisboa, com as terceiras e quartas categorias. No ano seguinte foram à final com o Benfica, mas perderam.

Mas com a chegada dos “loucos anos 20” o União começa a dar cartas. Em 1919/20 a terceira categoria alcança o título de campeão, derrotando na final o Grupo Desportivo da Fábrica das Seixas, por 3-0. Na temporada seguinte, novos triunfos. Os santamarenses vencem o Campeonato de Promoção e sobem à 2.ª Divisão, por troca com o Casa Pia.

Recordemos, com nostalgia, dos nomes que compunham a equipa vencedora: Artur Garcia; João Duarte e António de Carvalho; António Toucinho, António Peres e António José Pires; Luís Duarte «Bailão», Júlio Filipe, Augusto Silva, Augusto Mendonça «Calcinhas» e Carlos Silva «Carlota».

A 2.ª Divisão trouxe responsabilidades ao União. O Império, simpaticamente, cedeu o seu campo. Porém, com a doença de João Duarte – defesa que chegou a firmar forte e merecida reputação como jogador de boa categoria – o Império volta atrás na sua decisão. Em situação difícil aparece o Chelas Futebol Clube, que empresta o seu campo e o problema fica, de momento, solucionado.

Passa a haver um novo objectivo em Santo Amaro: a construção de um campo próprio!

Mas, do Campo de Santo Amaro, falaremos no próximo capítulo.