No capítulo anterior referimos que o nome do Carcavelinhos fora sugestão de Carlos Canuto. Falemos então um pouco desta personagem histórica do futebol lisboeta e nacional.

Em 1910, tinha Canuto 12 anos, começou a interessar-se pela bola trapeira. Os primeiros pontapés entusiasmaram-no. Ia para o largo da estação de Alcântara, que ainda hoje existe e pertence à C. P.. Alcantarense de fibra, pois nasceu em Alcântara – no bairro foi criado e se fez homem -, pertenceu ao grupo da Escola Rodrigues Sampaio, onde tinha por condiscípulos Jaime Gonçalves, Jesus Crespo, Leonel de Oliveira, Carvalho dos Santos e outros, tudo rapaziada bem conhecida, que deu exuberantes provas do seu valor.

Entretanto, existia em Alcântara um grupo chamado «Ideal Alegria», de que faziam parte Manuel Marques, antigo árbitro de primeiro plano e dirigente, Henrique Silva, antigo director da CUF do Barreiro, Rufino José de Araújo, entre outros. Canuto ingressou, também, no «Ideal Alegria», alinhando ao lado de elementos que viriam, mais tarde, a ser apreciáveis jogadores.

Em 1912 dissolveu-se o «Ideal Alegria» para dar lugar à fundação do Carcavelinhos, e Carlos Canuto deu-se ao novo clube de alma e coração, como era uso naquele tempo. Canuto, que como jogador apenas representou o Carcavelinhos, viria, também, a ser dirigente e um destacado árbitro do futebol português.

Ainda em 1912 iniciava-se o torneio do «Cruz da Pedra», para quintos grupos e infantis e exclusivamente para clubes não filiados na Liga de Futebol, a entidade oficial então existente, que antecedeu a actual Associação de Futebol de Lisboa.

Participaram nesse torneio o Chelas, Marvilense, Campolide Foot-Ball, Leão, Palmense, Amoreiras, Calhariz, Cruz da Pedra, Ocidental e Carcavelinhos, que se inscreveu com o seu melhor quinto grupo e com uma equipa infantil. O 5.° grupo era constituído por Carlos Gaspar, Armindo de Azevedo, Armando Antunes, Henrique Abrantes, Alfredo Soares, Henrique Silva, Artur Rodrigues, Frederico Bernardo, Alexandre. Nunes, Américo Baptista e José Vieira.

O grupo infantil era formado por José Lopes, Armando de Oliveira, Carlos Rodrigues, José Cardoso, Bernardo Castanho, Armindo de Oliveira, Aleixo Nunes, Pedro Rodrigues, Carlos Canuto, Domingos Santareno e Francisco Caldas.
Neste torneio não havia taças, mas medalhas a distribuir pelos jogadores das equipas vencedoras. Tanto em quintos grupos como em infantis, o campeão foi o Carcavelinhos, tendo apenas sofrido, no torneio do quinto grupo, uma derrota (1-0), infligida pelo Calhariz de Benfica.

Para apuramento do campeão infantil teve o Carcavelinhos de se bater cinco vezes com o Palmense, ao cabo dos quais saiu vencedor. Porém, a pretexto de que Rufino José de Araújo, que também tomou parte no torneio do 5.° grupo, estava qualificado pela Liga de Futebol, só entregaram aos alcantarenses as medalhas respeitantes aos jogadores do grupo infantil.

A seguir ao torneio do «Cruz da Pedra», disputou o Carcavelinhos outro – a Liga Alcantarense – igualmente para quintos grupos e infantis. Inscreveram-se neste torneio, além do Carcavelinhos, o Ocidental, Imperial, Racing Berne, Boa-Hora, Bom Sucesso, Sportivo União, Junqueira, Aliança e Sportivo Império.
Disputaram-se duas taças. Ambas foram ganhas pelo Carcavelinhos.

Um outro torneio se disputou ainda, o da «Taca Liberdade», organizado pelo União Foot-Ball Lisboa, só para quintos grupos. Novamente o Carcavelinhos chamou a si a posse da taça, com vitórias consecutivas.

Findos estes torneios, outros troféus foram conquistados no famoso «Campo de Alcântara», que Rufino conseguiu que fosse cedido ao clube.

Recordam-se igualmente os êxitos dos infantis nos torneios do Luso de Campolide e do Calhariz de Benfica. O Carcavelinhos possuía o «onze» mais homogéneo de então, o que obrigou os adversários – o Ocidental, o Imperial, o União Lisboa e o Junqueira – a aparecerem, de vez em quando, reforçados com Cândido de Oliveira, Napoleão Palma, José Pimenta, Aníbal dos Santos e outros mais.

Assim se arrastou o Carcavelinhos até 1917, tendo muitos dos seus jogadores dispersado por outros clubes que disputavam o campeonato da Associação de Futebol de Lisboa, escolhendo, todavia, de preferência, o Grupo Sport Cruz Quebrada.

Em 1917 inscrevia-se também o Carcavelinhos na Associação de Futebol de Lisboa, disputando os campeonatos de segundas e terceiras categorias neste ano e em 1918.

Quer o União Lisboa, quer o Carcavelinhos, inscreveram-se na primeira associação do país no mesmo dia – 22 de Fevereiro de 1917. Os unionistas inscreveram-se em terceiras e quartas categorias.
Será pois interessante fixar os nomes dos primeiros jogadores inscritos pelos dois clubes.

Pelo União: José Maria Amaral, César Figueiredo, Manuel Marques, Francisco Lopes, Joaquim Martins, Leonildo Paulo Tavares, José Lopes, Luís Gama, Francisco Gama, Luís Ferreira, Manuel Gonçalves, Adelino Costa Marques, Carlos Augusto, Luís Joaquim e David Conceição.

Pelo Carcavelinhos: Inácio Silva, António Ribeiro, Armindo de Oliveira, Henrique Silva, Júlio Pais, José Garcia, Augusto Rodrigues, Armando de Oliveira, Francisco Ferreira, Henrique Abrantes, Manuel Pinto, Mário Gomes, Francisco Velez, José Augusto Salgado, Bernardo Castanho, Manuel Bento, José Dias de Sousa, Alexandre Nunes, António Maria Almeida e Jacinto Domingues Júnior.

O Carcavelinhos, contudo, não tinha campo e a sua inscrição só se concretizou devido à cedência, pelo Benfica, do seu terreno.

Mas nem só no futebol os alcantarenses marcaram posição de relevo. Outras modalidades lhes mereceram especial atenção, como é o caso do atletismo, por exemplo.

A actividade do Carcavelinhos em atletismo data de 1917, tendo Eduardo Ferreira, em Março desse ano, obtido o primeiro lugar numa prova de fundo organizada pelo Recreios da Amadora. No ano seguinte, em 1918, organizou o clube de Alcântara igualmente uma prova de fundo, com inscrição limitada às colectividades existentes no bairro.

As primeiras classificações dessa competição foram ganhas pelos nossos representantes que, seguidamente, continuaram a tomar parte com certa regularidade, em provas, quer inter-sócios, quer inter-clubes, sempre com resultados lisonjeiros.