O título deste VII capítulo pode parecer estranho, mas toda a história descrita nele é, também ela, estranha.

Concluído o Campeonato de Lisboa da época de 1920/21, o jornal «Os Sports» organizou, com o patrocínio da Associação de Futebol de Lisboa e dos clubes nela filiados, entre equipas de primeiras categorias, a disputa da taça «Mutilados de Guerra».

Esta taça seria disputada anualmente, ficando o clube vencedor na sua posse provisória durante aquele ano. A posse definitiva verificar-se-ia quando um clube triunfasse três anos consecutivos.

As receitas das entradas destes torneios, deduzidas as despesas de organização e retiradas as percentagens para a A. F. L., reverteriam para o Fundo dos Hospitais de Mutilados de Guerra.

A inscrição era gratuita e os clubes não tinham direito a receber qualquer percentagem das receitas obtidas.

A prova era de eliminação à primeira derrota e a ela concorreram, além do Carcavelinhos, os seguintes clubes: Belenenses, Benfica, Casa Pia, Império, Internacional, Sporting e Vitória de Setúbal, isto é, todos os clubes que tomaram parte no Campeonato de Lisboa.

A prova teve início em 17 de Abril de 1921, com o encontro Sporting-Internacional, ganho pelos «leões» (3-1). O Carcavelinhos defrontou o Benfica, com quem tinham uma questão de supremacia a discutir, decorrente do Campeonato de Lisboa. O jogo realizou-se em 3 de Maio de 1921. Os alcantarenses, fazendo gala de melhor conjunto, eliminaram os «encarnados», por 2-0, uma bonita vitória.

Apurado para as meias-finais o Carcavelinhos foi menos feliz e viu-se arredado da prova pelo Belenenses, numa partida efectuada em 22 de Maio de 1921. Os «azuis» de Belém viriam depois a inscrever, com a maior justiça, o seu nome na taça, ao derrotarem, na final, o Sporting, por 2-1.

Eng.º Aníbal Mariz Fernandes, antigo presidente do União Foot-Ball Lisboa.

Abramos, entretanto, aqui, um parêntesis, a fim de falarmos dum nome bem ligado ao União Foot-Ball Lisboa, o engenheiro Aníbal Mariz Fernandes, antigo presidente da Direccão do clube unionista, elemento dos mais destacados da colectividade de Santo Amaro.

Mariz Fernandes, além de contribuir poderosamente para que o União Lisboa tivesse um campo próprio, emprestou sempre os seus excelentes dotes de inteligência ao seu clube. Foi aprovado sócio do União Foot-Ball Lisboa, na categoria de contribuinte, em 15 de Outubro de 1920, pagando a quota mensal de 15$00, sob proposta de Raul Ramalho.

O engenheiro Aníbal Mariz Fernandes, pelo seu passado de dirigente e pelas suas qualidades de carácter e inteligência, teria forçosamente de merecer referência especial. O antigo e prestigioso sócio n.º 22 do União foi, mais tarde, sócio 16 do Atlético Clube de Portugal.

Passemos, então, à época de 1921-22.

Reconheceu a A. F. L., não se sabe bem porquê, a necessidade – que não a vantagem – dos campeonatos não poderem continuar a ser disputados como era normal, empenhando-se em criar regulamentação definitiva. Contudo, o critério adoptado não primou pela justiça. Entreas propostas apresentadas, colheu maioria de votos a que fazia disputar o campeonato em duas divisões.

Os clubes mais velhos ficaram a constituir a 1.ª Divisão e os mais novos foram obrigados a integrarem-se na 2.ª Divisão. Assim o Carcavelinhos, que pertencia ao grupo dos mais jovens, viu-se relegado para a 2.ª Divisão, e aconteceu até a circunstância caricata e incompreensível do Casa Pia, que era o campeão de Lisboa em título, ter igualmente de baixar de divisão. À 1.ª Divisão ficaram a pertencer, portanto, o Benfica, o Internacional, o Império e o Sporting. A 2.ª Divisão ficou constituída pelo Carcavelinhos, Casa Pia, Belenenses e Vitória de Setúbal.

O Campeonato de Lisboa da 2.ª Divisão, da época de 1921/22, começou em 20 de Novembro de 1921, data em que o Carcavelinhos venceu o Vitória de Setúbal por 3-2.

Nos três desafios seguintes foram os alcantarenses menos felizes, pois registaram outras tantas derrotas. Assim, em 4 de Dezembro, perdeu com o Casa Pia (3-1), com o Belenenses (3-0) e com o Vitória de Setúbal. (6-3). Em 5 de Fevereiro de 1922, após desafio emocionante, o Carcavelinhos derrotou o Casa Pia, por 5-4, mas voltou a perder depois frente ao Belenenses (6-2).

Como é fácil de compreender, os alcantarenses fizeram uma prova muito irregular, alternando o bom com o mau, e não foram além do terceiro lugar, à frente do Casa Pia. O campeonato foi ganho pelo Belenenses, que subiu à divisão principal. Em segundas categorias, o triunfo pertenceu ao Vitória de Setúbal, em terceiras, ao Belenenses, e, em quartas, ao Carcavelinhos, a famosa quarta categoria de Alcântara, dirigida sob a proficiente e inteligente orientação de Rufino José de Araújo.

António Faustino, antigo presidente do Carcavelinhos e Secretário-Geral da Associação de Futebol de Lisboa, dirigente de boa escola, prematuramente falecido.

Entretanto, assinale-se o excelente comportamento do União no Campeonato da Promoção, que lhe conferiu o título de campeão e a competente subida à divisão superior, por troca com o Casa Pia, último da 2.ª Divisão. Ou seja, mesmo o Casa Pia tendo sido o Campeão de Lisboa do ano anterior, acabaria por descer duas divisões na mesma temporada. Surreal.

Os unionistas começavam a despertar as atenções dos desportistas lisboetas, mercê do, seu valor. Em nítida progressão, concorreram os rapazes de Santo Amaro à «Taça Especial», reservada às segundas categorias, prova organizada pela A. F. L., que teve a participação dos clubes seguintes: União Lisboa, Belenenses, Benfica, Casa Pia, Chelas, Império, Internacional, Portugal, Sacavenense, Sporting e Vitória de Setúbal.

O comportamento do União Lisboa foi magnífico, chegando até às meias-finais. Eliminando o Internacional (3-1) e o Benfica (3-1), veio a perder com os Setubalenses pela diferença mínima (2-1). A taça iniciou-se em 2 de Abril de 1922 e terminou em 7 de Maio do mesmo ano.

Um facto digno de menção ocorreu em 18 de Maio de 1922. A. Direcção da Associação Futebol Lisboa, toada na devida consideração o feito heróico de Gago Coutinho e Sacadura Cabral, ao fazerem a ligação aérea entre Portugal e o Brasil, resolveu cancelar todos os castigos aplicados e conceder ampla amnistia a jogadores e clubes que não fossem além de um ano de suspensão. Desta medida colheu o Belenenses o maior benefício, por ter vários jogadores punidos.

Na época de 1922/23 estabeleceu-se polémica sobre a maneira de se disputar o Campeonato de Lisboa. Houve quem alvitrasse a abolição pura e simples das várias divisões. Uma divisão apenas, com os clubes agrupados em zonas, foi a fórmula mais discutida, mas afinal os adversários do Carcavelinhos e do União Lisboa, cujo valor começava a causar embaraços a muita gente, acabaram por vencer. Os dois populares clubes tiveram, por conseguinte, de continuar na 2.ª Divisão durante as épocas de 1922/23 a 1924/25.

Para a segunda edição da taça «Mutilados de guerra», introduziram-se algumas modificações no regulamento. Estabeleceu-se igualmente que o lucro do torneio fosse distribuído da seguinte forma: 10% para os mutilados de guerra; 22,5% para o Asilo António Feliciano de Castilho; 22,5% para o Asilo Branco Rodrigues; 22.5% para o Asilo D. Pedro V; e 22,5% para a Escola-oficina n.º 1.

Dados os fins altruístas da competição, o Carcavelinhos e o União Lisboa inscreveram-se imediatamente, assim como o Belenenses, o Internacional, o Império e o Sporting. De notar a falta do Benfica.

A prova começou em 1 de Janeiro de 1923 com os desafios Belenenses-Internacional (3-1) e Império-União Lisboa (2-1). O outro desafio, entre o Carcavelinhos e o Sporting, efectuou-se em 31 de Janeiro.

Os «leões», que eram os campeões de Lisboa, não puderam evitar a eliminação. Os alcantarenses ganharam por 2-1 e provaram que a sua equipa se podia bater com qualquer clube da divisão principal, escrevendo, assim, direito por linhas tortas.

Mercê desse resultado o Carcavelinhos ficou apurado finalista, juntamente com o Belenenses. Os vizinhos de Belém ganharam, na final, por 3-1, após partida emocionante e entusiástica.

Na primeira parte os alcantarenses bateram-se admiravelmente e fizeram jus a melhor resultado do que o empate a uma bola. No segundo tempo o Belenenses obteve os dois tentos que lhe garantiram a segunda vitória na prova.

As equipas alinharam:
Carcavelinhos – Júlio Augusto; Carlos Alves e Cabral; C. Abrantes, Rufino José de Araújo e Filipe Duarte; A. Ribeiro, Teixeira Mendes, Carlos Canuto, José Carlos e Henrique Abrantes.
Belenenses — Mário Duarte; Azevedo e Morais, Bernardino, Augusto Silva e Anacleto; F. António, Joaquim de Almeida, Veloso, Joaquim Rio e Alberto Rio.

Arbitrou Silvestre Rosmaninho, o tento do Carcavelinhos apontou-o Carlos Canuto e o jogo realizou-se no dia 8 do Julho do ano de 1923.