Recordemos o Campeonato de Lisboa da 2.ª Divisão da época de 1923/24, o qual, podemos adiantar desde já, foi renhidamente disputado, com luta indecisa até à última jornada.

A penúltima jornada do campeonato englobava o desafio Carcavelinhos-União Lisboa, vizinhos e rivais. A posição das duas equipas na tabela era algo diferente. Os de Alcântara, para não comprometerem a sua classificação, pois seguiam em primeiro lugar, não podiam perder o encontro; os de Santo Amaro, devido a seguirem em posição pouco agradável – último lugar – também necessitavam da vitória. Calcule-se, pois, a importância e o entusiasmo com que foi disputado o encontro.

Realizou-se ele em 9 de Março do 1924 e os alcantarenses, mercê da sua vitória por 3-2, mantiveram as esperanças quanto à conquista de titulo.

Eis as equipas:
CARCAVELINHOS – Amaro; António Ribeiro e Armindo; Daniel Vicente, Filipe Duarte e António da Conceição; Alfredo Rodrigues, Carlos Canuto, Carlos Domingos, José Domingos e Manuel Rodrigues.

UNIÃO LISBOA – Carlos Silva; João Duarte e Claro Duarte; Mário Gomes Pereira, Manuel da Silva e António Santos; Luís Duarte, Liberto dos Santos, Júlio Filipe, José Alves e José Nunes.

Arbitrou o Sr. Domingos Espada.

Logo de início o União beneficiou de um «penalty». O defesa João Duarte apontou, mas Amaro correspondeu com uma excelente defesa.

A seguir, Carlos. Canuto recebeu um passe de Carlos Domingos e obteve o primeiro golo do Carcavelinhos, que voltou a marcar aos 20 minutos. Depois de driblar Claro Duarte, Canuto atrapalhou-se com a bola, parecendo ensaiar alguns passos de «maxixe», a grande moda da época, mas conseguiu ainda bater o guarda-redes unionista.

O União Lisboa não desanimou. Aos 30 minutos, Liberto dos Santos (jogador que mais tarde viria a ser campeão nacional no Sporting e que também jogaria no Atlético), de recarga, obteve o primeiro tento da sua turma. O intervalo chegou com 2-1 a favor do Carcavelinhos.

O União, que jogou toda a primeira parte apenas com 10 jogadores, apresentou-se no segundo tempo completo, com a inclusão de Manuel da Silva, das categorias inferiores, pois o titular, Peres, médio-centro, não compareceu. Redobrou do esforças a equipa de Santo Amaro e o «keeper» de Alcântara foi impotente para evitar o tento do empate, alcançado por Júlio Filipe com um remate ao ângulo.

Calcule-se o entusiasmo da contenda. Porém, aproveitando-se do esgotamento do defesa João Duarte, pedra basilar, o Carcavelinhos carregou. Alfredo Rodrigues correu em direcção às redes contrárias, evitou um defesa o marcou o tento da vitória. Alegria na gente de Alcântara.

Faltava pouco para terminar a partida quando o guarda-redes do Carcavelinhos, ao executar uma defesa, deixou escapar a bola. O árbitro, afastado do local, apontou o centro do terreno. Armou-se um «pé-de-vento». Os jogadores do Carcavelinhos protestaram e o juiz, Domingos Espada, que não estava seguro da decisão que havia tomado, depois de consultar um juiz de linha, não manteve a validação do golo.

Foi a vez de os jogadores do União Lisboa se indisporem contra o árbitro tomando a atitude de abandonar o campo. Só depois de muito instado pelo público das bancadas e por intimação de um dos seus directores voltaram ao terreno.

Jogaram-se os poucos minutos que restavam da partida e o resultado não se alterou. Vitória do Carcavelinhos, por 3-2.