Um dos acontecimentos desportivos que mais prendeu a atenção dos desportistas de há 82 anos, foi, incontestavelmente, a realização, em Lisboa, do IV Portugal-Espanha, em futebol.

Nos três primeiros encontros os portugueses não tinham sido capazes de derrotar os espanhóis. Por isso mesmo, o quarto desafio foi encarado com enorme confiança, rodeando-se de cuidados especiais os seleccionados lusitanos, cujos pormenores de preparação suplantaram tudo quanto até então se havia feito.

Escolhidos os prováveis seleccionados, foram estes opostos ao Belenenses. Os «azuis» não ofereceram réplica e perderam por 3-0.

O local onde se disputaria o encontro entre as duas nações peninsulares esteve primitivamente marcado para o Porto, mas acabou por ser transferido para Lisboa, o que levou os jornais nortenhos a protestar energicamente. Os clubes levaram inclusivamente o seu protesto ao ponto de proibir que os seus jogadores emprestassem a sua colaboração à turma de Portugal.

Entretanto, prosseguia a preparação da equipa. Atentas as características dos futebolistas espanhóis – a célebre fúria – o Carcavelinhos foi chamado a defrontar a selecção, pois os alcantarenses, valentes, praticando um futebol viril, reuniam as condições indispensáveis para o efeito.

O jogo realizou-se no «Stadium» de Lisboa, em 10 de Maio de 1925.

A linha avançada do Carcavelinhos dispunha de conjunto apreciável e pôs a cabeça em água à defesa da selecção. Alguns jogadores desculpando-se com o jogo duro do Carcavelinhos, zangaram-se.

Nos primeiros minutos, Jaime Gonçalves, com um remate imparável, colocou o resultado em 1-0, mas decorrido pouco tempo os de Alcântara estabeleceram a igualdade, por intermédio de Carlos Canuto. Foi o cabo dos trabalhos. Os seleccionados, irritados pela «lição», tomaram algumas atitudes condenáveis, chegando um deles (Joaquim Ferreira) a abandonar o campo.

Com a marca de 1-1 terminou a partida, em que o Carcavelinhos, depois de boa exibição, colocou em xeque a turma nacional. Uniforme nos seus movimentos, os alcantarenses realizaram vistosos ataques, a que apenas faltou remate condigno. Manuel Rodrigues e Carlos Canuto, nos avançados, Daniel Vicente e Filipe Duarte, nos médios, e Carlos Alves e Armindo, na defesa, actuaram muito bem. Sucedeu até que Manuel Rodrigues suscitou por parte do seleccionador, Ribeiro dos Réis, a sua me1hor atenção e logo foi convocado.

Os muitos adeptos que assistiram ao desafio-treino retiraram desiludidos. Outros, menos conformados, irromperam em protestos contra o Carcavelinhos e, por via disso, Carlos Canuto e Alfredo Rodrigues, o popular «Sota», saíram do campo para ir às bancadas discutir acaloradamente com vários «protestantes».

Os jogadores escolhidos para defrontar a Espanha foram estagiar numa casa rústica em Montachique, obedecendo à disciplina do seleccionador único, Ribeiro dos Reis. Será curioso dar alguns pormenores do estágio.

Alinhamento da Selecção Portuguesa antes do IV Portugal-Espanha.

O regime era o seguinte: levantar às 7 horas e tomar o pequeno-almoço; depois eram os jogadores obrigados a fazer «camping» até às 10 horas (corridas, Saltos e ginástica, esta ministrada por Boo Kulberg (Um antigo ginasta sueco que participou nos Jogos Olímpicos de 1912). A seguir tomavam banho num tanque da quinta e ao meio-dia almoçavam. E almoçavam bem – costeletas, ovos, favas guisadas e peixe fresco. Seguia-se o repouso, para ao meio da tarde fazerem um «passeio higiénico». Às 20 horas jantavam e às 23, rigorosamente, cama com eles.

Talvez muitos leitores se surpreendam com os cuidados que há 82 anos, se tinham já com os jogadores de futebol. Porém, tais cuidados não foram assim tão bem recebidos junto da massa adepta. A opinião pública, espicaçada em parte pela imprensa da época e por alguns “inimigos” da selecção (!), lançava faíscas de ironia dizendo que tal procedimento mais «parecia a tropa!», ou que «o estágio é uma paródia, as massagens dão cabo dos homens de barba rija, ovomaltine e chocolates são para crianças!». De facto, Portugal perderia com a Espanha, mas um mês depois teria a sua primeira vitória de sempre, contra a Itália.

O jogo com a Espanha efectuou-se no «Stadium» do Lumiar, em 17 de Maio de 1925, e terminou com a vitória de «nuestros hermanos» por 2-0. Não fora ainda dessa vez que os portugueses conseguiram derrotar os espanhóis,

As equipas alinharam assim:
Portugal — Francisco Vieira (Benfica); Joaquim Ferreira (Sporting) e Jorge Vieira (Sporting); Raúl Figueiredo (Olhanense), Augusto Silva (Belenenses) e Cesar de Matos (Belenenses); Mário de Carvalho (Benfica), Jaime Gonçalves (Sporting), João Francisco (Sporting), Delfim (Olhanense) e Manuel Rodrigues (Carcavelinhos).

Espanha – Zamora; Quesada e Herminio; Samatier (cap.), Camporena, e Peña; Riera, Cubells, Oscar, Carmelo e Aguirrezabala

Os golos foram obtidos por Oscar e Carmelo e o desafio foi arbitrado pelo francês M. Vallat.