Consumado o regresso do Carcavelinhos à 1ª Divisão, vale a pena recuarmos no tempo para recordarmos que em 1921/22 se instituíram duas divisões e a Promoção.

Quais os clubes que se escolheram para a 1ª Divisão? O Benfica, o Império, o Internacional e o Sporting, os de mais antiga fundação, critério cómodo mas incoerente, pois o Casa Pia era o campeão de Lisboa e o Belenenses havia sido semi-finalista. Isso de nada valia e foram obrigados, conjuntamente com o Carcavelinhos, a ingressar na 2ª Divisão, enquanto o Império e o Internacional, que não passaram das eliminatórias, ficaram na divisão principal.

Até à época de 1923/24, baixaram à 2ª Divisão o Império e o Internacional e foram promovidos o Belenenses, o Casa Pia e o Vitória de Setúbal.

Então, aqueles dois clubes propuseram a constituição de duas divisões com seis equipas cada uma, para o Império subir à 1ª Divisão e o Internacional não passar à Promoção.

Nada conseguiram, porém. O Império teve de ficar na 2ª Divisão, convencido de que ganharia breve a subida, mas o Carcavelinhos saltou-lhe à estrada e contrariou-lhe os intentos.

Que sucedeu? O sistema deixou de servir. Era necessário engendrar outro que trouxesse de novo o Império à 1ª Divisão. E assim se elaborou o novo regulamento.

Quer dizer, enquanto o Belenenses, o Casa Pia, o Vitória e o Carcavelinhos andaram a lutar para conseguir um lugar na divisão principal, o sistema era bom, mas logo que os clubes dos autores do regulamento desceram para a 2ª Divisão, inventou-se outra fórmula, colocando-se oito turmas na 1ª Divisão.

Dessa medida veio a beneficiar o União Lisboa, estreando-se, deste modo, na divisão principal, o clube de Santo Amaro, que teve como companheiros o Carcavelinhos, Benfica, Belenenses, Casa Pia, Império, Sporting e Vitória de Setúbal.

Iniciou-se o Campeonato de Lisboa de 1925/26 a 18 de Outubro de 1925, tendo o União Lisboa perdido com o Sporting, por 2-1, e o Carcavelinhos derrotado o Império, por 4-2.

Na segunda jornada — 25 de Outubro de 1925 — o União venceu o Império, por 2-0, e os alcantarenses «esmagaram» o Benfica por 6-2, depois de magistral exibição.

O encontro efectuou-se no campo do Restelo, propriedade do Casa Pia. Antes, Carlos Canuto e Vítor Gonçalves, os capitães, tiveram de «pescar» um árbitro — o casapiano Francisco Pinto de Magalhães.

Ao Intervalo, o Carcavelinhos ganhava já por 4-1.

A Imprensa da época (a sensata), não conseguiu arranjar palavras para classificar a exibição dos alcantarenses, que praticaram futebol de grande categoria, impressionando pelo conjunto rápido e afinado. Ainda o resultado estava em 1-0 favor de Alcântara, quando se estabeleceu um incidente entre o guarda-redes do Benfica (Francisco Vieira) e o avançado do Carcavelinhos (Manuel Abrantes). Os dois Jogadores foram expulsos, mas acabaram por entrar depois.

A propósito deste desaguisado, um crítico faccioso, que era sócio cio Benfica, resolveu beliscar a equipa de Alcântara, visando especialmente o Manuel Abrantes, n’ «O Sport de Lisboa», jornal que já não existe.

Perante tal desaforo, a Direcção do Carcavelinhos, em sinal de desagravo, enviou a seguinte carta para o jornal «Os Sports», publicada em 31 de Outubro de 1925, sob o titulo «Carta Aberta ao Jornalista. B. R.», que transcrevemos:

«Agora mesmo acabo de ler e reler a sua crítica em «0 Sport de Lisboa», sobre o jogo Carcavelinhos-Benfica — 1.ª categorias — realizado no domingo findo, no campo do Restelo, e confesso, pesarosamente, que ainda me repugna acreditar que o B. R. seja o seu autor.

É que, desde um casual encontro que nos tornou bons conhecidos, eu me habituara a ver em V. Ex.ª uma criatura um pouco superior ao fanatismo que por aí vegeta… Afinal, enganei-me e bastou uma triste crítica para o desmascarar…
V. Ex.ª nela surge tal que é: um fanático ridículo, um clubista irritante!

E eu sublinho a palavra crítica, porque o B. R não critica — insulta apenas! Desde o remoque grosseiro em que alude ao «internacional» Carlos Guimarães (como se o Carcavelinhos só fosse clube com o Guimarães – internacionais ou não); desde as hossanas que, turibulando, rende curvado e respeitoso, a superior classe do seu Deus, o Benfica; desde o atestado de estupidez que passa aos homens do Carcavelinhos, por não terem ficado no resultado de 4-2 (uma questão apenas de fechar a torneira!), score fácil para iludir o público e a… crítica, até ao período em que relega o tal indivíduo da marrada, V. Ex.ª é simplesmente agressivo e infeliz.

Agressivo, porque provoca nas colunas dum jornal um modesto e honesto operário que, antecipadamente se sabia, não podia, nem pode, responder-lhe pelas mesmas vias.

Apenas lá no íntimo da sua consciência, ele, espezinhado ao peso brutal dum fanatismo ignóbil, poderá, quando muito, bradar: Grande cobarde!

Infeliz, porque V. Ex.ª, B. R., nem sequer teve pejo de conspurcar no que há de mais respeitável, a dignidade de um homem casado!

Eu tenho pela imprensa um respeito sagrado, mas quando o jornalista baixa do seu pedestal, nobre e digno, e vem para as vielas imundas do insulto conspurcar a sua caneta de trabalho, eu tenho nojo desses críticos e toda a gente decente e de bem, sr. B. R., tem nojo da sua crítica.

Não é assim, torpemente, que se insulta um clube, que, se não lhe pede nem lhe quer a sua simpatia, tem, pelo menos, pelo seu passado honestíssimo, direito ao respeito de todos os críticos, e, até mesmo, dos seus mais ferozes adversários.

Em nome do ofendido, em nome do meu clube, pois o Carcavelinhos é uma família – uma grande família – que sente todos os agravos insolitamente dirigidos a qualquer dos seus associados, eu exijo que, até à próxima quarta-feira, no jornal «O Sport de Lisboa», o jornalista B. R. nos dê as mais terminantes e cabais explicações. Caso contrário, o Carcavelinhos reserva-se o direito de mandar processar o aludido jornalista, sob a acusação do ser um difamador gratuito.

Aguardemos, pois, essas explicações».

Assinava a carta, Alberto de Sousa Lino, Presidente da Direcção do Carcavelinhos Football Club.