Conforme prometemos, neste capítulo ocupar-nos-emos de um popular jogador do União Lisboa, Liberto dos Santos, que foi durante muitas épocas um dos grandes esteios do clube de Santo Amaro, do qual foi «capitão».

Liberto Gonçalves dos Santos, nasceu em 1 de Fevereiro de 1908, e «internacionalizou-se» no campo do Ameal (Porto), durante o 1.º Portugal-Checoslováquia, sendo nessa altura o jogador português que mais cedo ganhou os galões de «internacional».

Sobre este assunto, muitas têm sido as opiniões dos entusiastas do futebol, sustentando uns que essa honra pertencia a Pepe, outros a Espírito Santo ou Valdemar Mota.

Na realidade, o vencedor é Liberto dos Santos, que vestiu a camisola de Portugal aos 17 anos, enquanto Espírito Santo foi «internacional» aos 18 anos, Pepe, aos 19, e Valdemar Mota, aos 21.

Mas falemos da partida internacional que marcou a estreia do antigo e valoroso jogador do União Lisboa, o 6.º da selecção lusitana, pois defrontara-se já a Espanha (4 vezes) e a Itália, de sorte que o jogo n.º 6 coube à Checoslováquia.

Da mesma forma de que contra a Espanha, também contra os checos a preparação da equipa portuguesa foi rodeada dos maiores cuidados.

Liberto dos Santos estreou-se na Selecção com 17 anos. Acumularia 5 internacionalizações.

Como pela primeira vez a cidade do Poro fora escolhida para a efectivação de um desafio inter-nações, aliás com toda a justiça, os seleccionados foram estagiar para Vizela, ficando hospedados no hotel Sul-Americano, situado em local magnífico.

O seleccionador nacional voltou a ser Ribeiro dos Reis. Na qualidade de massagista deslocou-se ao norte, Artur John, ao tempo treinador do Vitória de Setúbal, de parceria com o tenente Avelino de Andrade.

O 1.º Portugal-Checoslováquia disputou-se em 24 de Janeiro de 1926, às 15 horas. Duas horas antes já o movimento era desusado. Na Praça da Liberdade a confusão era tremenda, aumentada pelas sirenes das motos, o buzinar dos automóveis e o tilintar dos «eléctricos», cujos guarda-freios faziam ouvir o característico brado da época: Arreda! Arreda!

E a multidão lá foi para o campo do Ameal, do Sport Progresso, através de uma rua estreitíssima, acotovelando-se, estimada em cerca de 15000 pessoas, excelente para 1926.

Às 15 horas os checos aparecem, atléticos e garbosos, de camisola encarnada, com uma lista branca à altura do peito, e calção azul. Os portugueses entraram a seguir, envergando a camisola verde-esmeralda e calção branco. Por último, o árbitro, o belga Gaston Degotte.

As equipas:
Portugal – Cipriano Santos (Sporting); António Pinho (Casa Pia) e Jorge Vieira (Sporting); Raul Figueiredo (Olhanense), Alberto Augusto (Sporting de Braga) e César de Matos (Belenenses); Liberto dos Santos (União Lisboa), João dos Santos (Vitória de Setúbal), Armando Martins (Vitória de Setúbal), J. Delfim (Olhanense) e M. Fonseca (Académico do Porto).

Checoslováquia – Fleischmann; Tezicka e Janick; Lastevickes, Schillinger e Kornig; Krema, Sindelar, Jelineck, Horack e Cisar.

Ao intervalo as equipas estavam empatadas 0-0.

Aos 14 minutos do segundo tempo, Portugal conseguiu marcar. Pinho desfez um passe do interior-esquerdo checo. A bola foi captada por Alberto Augusto; o médio-centro lusitano driblou um adversário e lançou o extremo-esquerdo, Fonseca, que, por sua vez, endossou a Armando Martins; o avançado setubalense fintou o defesa-direito da Checoslováquia e passou repentinamente a João dos Santos, que rematou fortíssimo e fez 1-0 para Portugal.

A 15 minutos do termo da partida o resultado ficou estabelecido (1-1). Jorge Vieira, ao tentar desarmar um avançado contrário, caiu. Armou-se confusão na defesa de Portugal, até que Jelinek, avançado-centro checo, com um «tiro» imparável, levou a bola às malhas. Cipriano ainda mergulhou mas nada conseguiu fazer.

No final do desafio o público criticou a linha avançada portuguesa pela deficiência no remate, o que foi, aliás, corroborado pelo marcador do tento nacional (João dos Santos), que, à chegada a Lisboa, fez as seguintes declarações: «Muito mau o jogo, pois só a defesa fez bom trabalho. O público foi muito frio, com pouco entusiasmo. Com um público assim os jogadores não podem animar».

No domingo seguinte (31 de Janeiro de 1926), em Lisboa, a selecção de Praga derrotou a de Lisboa por 4-1. A imprensa nortenha não perdoou o deslize do combinado lisboeta, pois havia censurado o seleccionador nacional por não incluir na turma portuguesa mais jogadores do Porto.

A extremo-direito voltou a alinhar o unionista Liberto dos Santos.

As duas selecções alinharam:
Lisboa – Cipriano Santos (Sporting); António Pinho (Casa Pia) e Jorge Vieira (Sporting); Vítor Hugo (Benfica), Filipe dos Santos (Sporting) e César (Belenenses); Liberto dos Santos (União Lisboa); Jorge Tavares (Benfica), Armando Martins (Vitória de Setúbal) e Manuel Rodrigues (Carcavelinhos). Assinale-se a presença do alcantarense, Manuel Rodrigues.

Praga – Taussig; Krema e Horack; Koenig, Sindelar e Ctverak; Fleischmann, Svoboda, Toziska, Lastevickes e Cisar.

O resultado foi uma desilusão para os lisboetas, tanto mais que a selecção de Praga era um grupo formado por jogadores de clubes que andavam em viagem, embora alguns pertencessem à equipa nacional checa.

A propósito deste desafio, escreveu Ricardo Ornela: «Depois do empate, aceitável, entre as selecções de Portugal e da Checoslováquia, e do triunfo, sob todos os aspectos brilhante, do «onze» do Porto sobre o de Praga, a pesada derrota infligida por este último ao «onze» de Lisboa, teve o seu quê de desilusão para o lisboeta que se preza».

Resta-nos acrescentar que o golo de Lisboa foi obtido por Filipe dos Santos e que a partida foi arbitrada (muito bem) pelo juiz, Ilídio Nogueira.